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Ny Smith lança “There is a lie”: uma canção sobre ilusão numa era de máquinas criativas

Ny Smith

Há músicas que nascem de um instrumento, outras de uma história, outras ainda de uma dor. E há canções que nascem também de uma pergunta.

“There is a lie”, o novo single de Ny Smith, é assumidamente um tema produzido com Inteligência Artificial, através da plataforma SUNO. Mas a composição musical e a letra são da autoria de Hugo Centúrio. Esta frase, simples na forma, já carrega tensão suficiente para abrir um debate inteiro.

Porque, afinal, o que significa “autoria” quando uma ferramenta participa ativamente na forma final da obra?
E o que estamos realmente a ouvir quando carregamos no play?

A canção como espelho do tempo

A escuta de “There is a lie” ganha outra camada quando conhecemos o seu contexto. Vivemos uma época em que a IA já não é um tema distante de ficção científica: está nas nossas rotinas, nas nossas decisões invisíveis, e agora também nas nossas criações artísticas.

A música, aqui, não aparece como uma demonstração “tecnológica”. Aparece como um espelho — e talvez como uma provocação tranquila.

A letra aponta diretamente para a ideia de ilusão:

There’s this lie / That’s being told / A big fat lie / To the whole wide world

Não é preciso dizer qual é a mentira. Talvez porque o objetivo não seja nomeá-la, mas sim mostrar que o ato de acreditar pode ser mais confortável do que o ato de questionar.

O tabuleiro, o peão e a ilusão

O refrão é o coração conceptual da música:

You’re a pawn / In this big black board / A passing pawn in this game of rules unknown

A metáfora do peão traz duas leituras interessantes.

A primeira é social: quantas vezes aceitamos regras que não compreendemos?
A segunda é tecnológica: quantas vezes participamos em sistemas que não conseguimos ver?

Numa era de algoritmos, curadoria automática, feeds personalizados e decisões preditivas, a imagem do “big black board” parece quase inevitável.
A palavra “black” aqui pode ser apenas estética. Ou pode ser também a ideia de uma caixa negra: sistemas complexos cujos critérios escapam à maioria de nós.

E então surge a pergunta simples e desconfortável:

Quando a música fala de regras desconhecidas, está a falar de política, de sociedade… ou de tecnologia? Ou de tudo ao mesmo tempo?

IA na música: ferramenta, coautora ou catalisador?

Assumir o uso de IA não é um detalhe técnico: é um posicionamento criativo.

Este é um dos pontos centrais deste lançamento: não esconder o processo, mas trazê-lo para o centro da conversa.

A IA, neste contexto, pode ser vista como:

  • Ferramenta: como um instrumento moderno, um estúdio, um plugin.
  • Parceira de exploração: uma forma de testar possibilidades que demorariam semanas.
  • Espelho estético: algo que devolve ao artista versões alternativas de si mesmo.
  • Ameaça simbólica: não à criatividade humana em si, mas à forma como o mercado pode lidar com o valor do trabalho criativo.

E aqui surgem mais perguntas do que respostas:

  • Uma canção é menos verdadeira por ter sido gerada com IA?
  • A emoção que sentimos depende da origem do som?
  • A honestidade está no resultado… ou no processo?
  • O que é mais “humano”: tocar tudo sozinho ou usar uma ferramenta para chegar onde a imaginação já estava?

O paradoxo bonito desta canção

Talvez exista um paradoxo intencional em “There is a lie”.

A canção fala de uma mentira global, de um jogo onde somos peões, de ídolos que enganam.
E, ao mesmo tempo, o próprio lançamento escolhe uma rota que pode ser interpretada por alguns como suspeita: IA na produção musical.

O que torna tudo mais interessante.

Porque a pergunta pode virar-se para nós:

Será que a “ilusão” não é apenas um tema da letra — mas também uma lente sobre como vamos passar a olhar para a arte nos próximos anos?

Afinal, o que consideramos real?

  • A voz que nos comove?
  • A narrativa que nos atravessa?
  • A intenção do autor?
  • Ou o método usado para transformar ideia em som?

O futuro não pede permissão — mas pede consciência

A HARM Records acredita que o papel de uma editora independente também passa por levantar temas difíceis sem necessidade de respostas definitivas.

A IA na música não é só uma discussão técnica, jurídica ou económica. É também uma discussão cultural e emocional.

O que acontece quando:

  • as ferramentas se tornam tão boas que a linha entre “feito por humano” e “feito por máquina” deixa de ser óbvia?
  • a abundância de música gerada automaticamente aumenta de forma explosiva?
  • o “som possível” se torna infinito, mas a atenção humana continua finita?

Não sabemos.

Mas talvez a função da arte seja precisamente esta: fazer-nos sentir a pergunta antes de a compreendermos racionalmente.

Sobre o single

“There is a lie” é o novo lançamento de Ny Smith — um alter ego musical de Hugo Centúrio, integrado no universo da HARM Records.

  • Letra e composição: Hugo Centúrio
  • Produção com IA: SUNO
  • Estética: indie-folk / alt-folk, com foco em atmosfera, minimalismo emocional e metáfora

Esta canção não pretende encerrar o debate sobre IA.
Pretende abri-lo com uma vela acesa no meio da neblina.

Uma última pergunta

Se a música te emocionou, fez pensar ou incomodou de forma subtil, talvez isso já seja suficiente.

Porque no fim, a questão maior pode ser esta:

Numa era em que as máquinas conseguem simular tanta coisa — o que é que ainda queremos que a arte nos prove?

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